sexta-feira, dezembro 21, 2007



Imagem: The Embrace (L'étreinte), 1903 (Musée de l'Orangerie, Paris, France) do pintor e escultor cubista espanhol Pablo Picasso (1881-1973).

BEIJO

“(...) Colada à tua boca a minha desordem. O meu vasto querer. O incompossível se fazendo ordem. Colada à tua boca, mas descomedida... (...) eu te sorvo extremada à luz do amanhecer”. (Hilda Hilst, Do desejo).

Luiz Alberto Machado

Dos lábios rubros dela, ah botão de rosa convidativo, o mormaço do desejo escaldante que me contagia e meu coração bate furioso para dizer alguma coisa, não há de dizer nada, apenas beijá-la, um beijo além da foto de Eisenstaedt, um beijo real para lá dos de concreto de Rodin, um beijo além da poesia.
Ah, dos lábios rubros dela carne da minha boca mil vezes toda química do afeto e eu suplicante mais que 200 pulsações cardíacas, enlouquecendo para morder seus mamilos, abocanhar seus suspiros, até os seus pecados e é só o que respiro.
Ah, o beijo e dela nua e linda, o beijo da mulher amada ateando meu incêndio e eu com a mão no fogo inextinguível na boca demolidora dos lábios inguinais onde sou raio de corisco enquanto ela troveja no que sou de canibal.
O beijo dela eu devoro a carne fresca da mulher amada e desliza em sonhos e chove a nossa torrencial descarga de suor que vem da cascata de desejo.
O beijo dela e o meu na flor provocativa da boceta que orvalha escarlate de todo sangue vivo pelo azougue de vitalidade do útero acolhedor de égua assustada, acuada, fugidia com seu jeito veloz de eviscerar fragrâncias refugiando minha loucura.
O beijo e eu na mulher amada, o rosto, o riso, os seios, o corpo todo e a gente nenhuma âncora decolando no tempo piromaníaco, onde a gente faz a festa na ferocidade do cio, um ao outro a refeição do dia e eu, os lábios dela, a vida dela, o gozo dela.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

Veja mais Crônica de amor por ela. E com muito humor veja mais as previsões do Doro para 2008, as crônicas natalinas e o reveillon tataritaritatá!

De férias até 03/01/2008.
Beijabrações!

quinta-feira, dezembro 20, 2007



Imagem: Desnuda, de Flora Cavalcanti.

POEMAS & CANÇÕES DE AMOR POR ELA

Conquanto Priapo de madeira eu seja, madeira a foice, como vês, e o pênis, vou te agarrar e segurar bem firme e todo em ti, por longo que ele seja, mais tenso do que a corda de uma cítara, até tuas costelas vou cravá-lo” (Da Priapéia, VI – Ameaça de Priapo a uma jovem. Tradução de José Paulo Paes).

COBIÇA
QUANDO TE VI
ARDÊNCIA
POSSESSÃO INSANA
QUANDO O AMOR É AZUL
AH, ESSE OLHAR...
CONVITE
PONTE SOBRE ÁGUAS TURVAS

Veja outros poemas & canções de amor por ela.

quarta-feira, dezembro 19, 2007



“(...) Os peitos da Bem-Amada nelas criaram leite e as suas coxas se arredondaram nas luas novas”. (Jorge de Lima, O sacrifício da bem-amada).

Ginofagia (Poemiudinhos). In: Crônica de amor por ela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Arte: Derinha Rocha.

Veja mais Ginofagia.

terça-feira, dezembro 18, 2007



Imagem: Nua, acrílico sobre tela 50x70 cm, do artista plástico paranaense João Werner.

O TANGO NOTURNO MOLHANDO O DESEJO

E foi por ter justamente amado
Que acalentei a dor e a solidão
E renasci eternamente menino.


Luiz Alberto Machado

Ah, a presença feminina sempre me fascinou, perseguindo as minhas mínimas horas. Havia sempre uma presença desejada de mulher, o jeito menina, a artimanha de moça, o mistério de grandeza anatômica e anímica. Eu me desconcertava com isso, buscando jacea, aquele brilho eterno de equilíbrio interior e satisfação carnal. Se não conseguia raciocinar, me desarrumava arrumando por dentro qualquer forma para delinear a vida desencontrada. E era vez em quando que me pegava sonhando a mencionar-lhe o velacho, sussurrando na minha loucura frustrada em busca de malacias para demover os fragmentos que insistia se despedaçar de mim. E mais me desarrumava o tino com imagens loucas e sedentas de quem alcançava o paralogismo de ser feliz a qualquer custo, com uma bela e linda e nua mulher que seria a minha Calipedia, a Valéria Monteiro da minha estimação, o meu caminho do gol, a minha Juliete Binoche depravada, a minha bela pinups que me encaminharia a um orgasmo de 244 milivolts de descarga na erupção final do meu vulcão e o prazer de curtir naquele momento o meu devaneio mais completo e de olhos abertos, enlouquecido e com o amor sendo a minha camisa de força.
Era uma quimera linda de morrer onde eu a seguia caminhando na noite estrelada pelas luzes da cidade em polvorosa com seus semáforos de seguir e ficar, os seus edifícios acasalando alegrias e dores e um bandoneón solando ao meu ouvido, acompanhado de um violino em tons pungentes, os faróis encandeando, os passos dela se movendo com uma firula nas pernas, dançando no meu palco imaginário, serpenteada com várias polegadas de salto.
Eu me deleitava com aquela figura etérea e demoníaca que mirabolante vestia-se em um daqueles tubinhos que menos cobrem o que mais enaltece na figura de uma mulher: vermelho de alcinha combinando com o batom dos lábios rubros e o sapato salto agulha, hipnotizando, fetichista. E passava uma das pernas à minha cintura, arqueava-se sentando de costas no meu ventre, sobre as minhas coxas, no meu colo, respirando rente o meu rosto e insuflando o seu perfume, o seu hálito, a sua vitalidade, era muito real para ser mais uma mentira capturada. E rodopiava real no tablado do meu coração, abrindo uma das pernas que vinha arrastando o bico do sapato até encontrar a minha intimidade, a dar volteios e cobrando envolver sua cintura.
Ah, eu não sabia dançar, nunca soube, ela roçando o pé entre as minhas coxas, meu desejo insone, o calcanhar enovelando-me entre o ventre, uma sentada, um gancho duplo, a parada, o volteio e o arremate: um só corpo de quatro pernas, um jogo sedutor me dando o prazer de curtir o seu ar sensual.
A sua mão esquerda sobre o meu ombro. A outra, segurando com graça a minha mão num solo de Piazzola por testemunha e eu protagonizando a cena, o corpo contorcido, o pé direito até o joelho abrindo-se o vestido vermelho-negro a mostrar-lhe sutilmente as intimidades, corpo belo, solto, um cello, um piano, um violão, um violino, um bandoneón, e eu afungentando a solidão, a ponte enquanto a pele, ah, ela dançava frente o espelho, deitava-se sobre uma mesa e, num ímpeto abracei suas pernas longe do barulho da humanidade até que num golpe extremo uma de suas pernas passou-me o ombro, o ventre colado no meu, quase em pé, mostrando a entrega mais inteira de uma alma e de uma vida a descortinar-me o elo perdido.
Deitei-me sobre o seu corpo, levantei-lhe a saia e a minha língua como uma drosófila sobre seu púbis, a minha prenda, estimação preferida, dando um ar de êxito à nossa química. O zíper do seu vestido escorrendo, minha vista só flagrava o seu arabesque, os fouettés, pas-de-deux, o corpo de baile exclusivo para mim, a coreografia única do desejo: a pele cobre oliváceo das paquistanesas, a própria efígie do pecado, oh, minha Ana Botafogo! Aquela leveza, o aprumo, o flair, aquele maleável jeito de catwalks driblando meu fuso horário de forma espetacular, oh, sex simbol da minha fantasia.
Era tudo real e eu nem discernia de nada. Tivera a oportunidade e dela fazia questão de me jogar de cabeça, afogando voluntário. E se me entorpeci dormi menino feliz nos sonhos mais angelicais que pudera ser a mim concedido.
Ah, mulher, eu jamais poderia ser feliz sem essa presença onímoda, oh minha cajila desejável que redimiria o meu abandono e traria luz ao obscuro destino tresloucado da minha estabanada existência.
Oh, minha panacéia escondida no mais remoto dos dédalos incognoscíveis, se eu tivera algo de mim fora roubado por sua querência inaudita.
Somente ela com um estalido forte a roubar o devaneio, aquela deliciosa mulher, aquela Perséfone que aprontara comigo e me fazia presa fácil a quem sempre errara de amar.
Era a minha insanidade mental queimando sedenta a rever-lhe onírica vestida agora numa colorida indumentária como uma dançarina tailandesa, uma coroa prateada na cabeça, uma vestimenta de renda bordada nos ombros, uma saia curtinha de diversas cores, a saborear de um licor de jenipapo. Meu membro endoidecia e ardia meu desejo a ter-lhe no casting das beldades, transgredindo minha lucidez e à serviço da sedução. E causava em mim um frisson aquela saia 40 centímetros acima do joelho e eu na maior azaração. Fazia dela presença e imaginação: um corpo escultural de Rodin. Um heliponto onde eu queria aterrissar nesse corpo com a sede de séculos. Eu seu lobo mau, minha granada matreira germinando como se estivéssemos num chalé distante e abandonado, curtindo um fundue regado a vinho do Porto. Seduzia-me mesmo e com aquele lance quando se descruzava as pernas eu incendiava buscando a sua mina de ouro que eu queria demais explorar, e como queria, se não houvesse uma distância cislunar entre nós.
Não, eu não me desvencilhava da perspectiva e afinava a luz com o meu desvario de Carlos Saura a flagrar-lhe as mais indecentes poses. Eu abusava dos closes, explorava sua gesticulação e armazenava na tv imaginária do meu cérebro: o meu sexo atravessando a sua carne e os sussurros aos beijos chupados de todos os desejos catados no gozo de nossa agonia amorante. Se enlouquecia? Delirava. É sempre muito aprazível a presença delicada de um corpo nu de mulher.

© Luiz Alberto Machado. Direitos Reservados.

Veja mais Rol da Paixão.

segunda-feira, dezembro 17, 2007



Imagem: The White Skirt, 1937. do pintor dada/surrealista francês Balthus (1908-2001).

“(...) Teria prazer maior se não houvesse sentido, com todo o lado esquerdo, das têmporas à cintura, que Lola olhava. Era por certo um olhar apaixonado. Lola não sabia olhar de outro modo. Era um pouco incomodativo, porque os olhares apaixonados pedem, como retribuições, gestos amáveis e sorrisos (...) Em suma, a gente agüenta sem grande esforço um olhar. Bastava habituar-se àquele calor peculiar que nos vem queimar o rosto quando se sente que alguém observa a gente de modo apaixonado” (Jean-Paul Sartre, A idade da razão).

Aproveito para convidar você para participar da pequena mostra do RÉVEILLON TATARITARITATÁ acessando:

AMOR IMORTAL
FOLIA CAETÉ
SANTA FOLIA
ALVORADA
&
MANGUABA

Fazendo um ano novo melhor para você!!!

Beijabrações

sexta-feira, dezembro 14, 2007



Imagem: Persian Woman with Painted Crosses, 1929 (Private Collection) do pintor e escultor do fauvismo francês, Henri Matisse (1869-1954).

SEDUÇÃO DA SERPENTE

Luiz Alberto Machado

Quando visitei os mundos de Gulliver
Percebi quão importante é o amor
E foi aí que você surgiu com seu jeito cadenciado e lento
Na minha direção
E tal qual Vênus hipnotizou
E com sua aproximação
Rastejou pelos cantos sob o meu assobio na noite
E seu prazer se animou no meu sangue quente
Depois de haver jiboiado no reino das suas pedras
E me prendeu com suas presas ocultas
E me atacou mortalmente com os seus guizos
Os guizos que quero roubar
Para curar meu quebranto
Para a viola amaciar o som

Logo eu que não tenho as favas-de-santo-inácio
Logo eu que sigo amante do Bastão-de-Asclépio
Fui rendido à sua língua que alcançou meu poço mais fundo

Se apoderou de mim com sua peçonha
E seu veneno me paralisou
E paralisado me devorou
Qual fertilidade, qual orixá avagã,
Oxumaré, arco-íris
Deus quetzacoalts dos astecas
Qual serpente emplumada
A sacra egípcia
Que por não ter mais idade é sempre sedutora
Cujo rabo branco quando não mata, aleija
Tão má de matar seu próprio filhote
Cuja espinha também carrega veneno
Cujo beijo me levou por mundos impossíveis
E à sua mercê, Raoom, minha boicorá
Vivo atado para sempre
Contaminado para sempre
Condenado a morrer de amor


© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

Veja mais Crônica de amor por ela.

quinta-feira, dezembro 13, 2007



Imagem: Estrela de Davi, do artista plástico alagoano Denis Matos.

POEMAS & CANÇÕES DE AMOR POR ELA

Amada, deixei a porta aberta para vires. Plantei árvores longas para te dar sombra. Apressa-te, querida minha, fechei os olhos para esperar-te. Só os abrirei quando chegares, ó perfeitíssima entre as mulheres. Fecharei depois a minha porta para o silêncio de Deus nos envolver. Amada minha, traze a eternidade para nós. Traze a estrela que me prometeste. Traze tuas sobrancelhas como asas. Perdi o paraíso;não to posso dar. Dar-te-ei o sonho em que te geraste: o começo das águas em que te vi flutuando. Vem como estás, vem molhada das fontes. Vem como estás, recoberta de folhas. Vem do meu barro, amada minha, vem. Vem, virgem através do tempo, vem. Vem, louca através da ordem, vem. Vem cantando através da dor, vem. Vem com o primeiro pecado, vem. Vem que tu foste gerada para mim. A porta está aberta, amada vem". (Jorge de Lima, Amada vem).

ESTIGMA
BOLERO
JURAMENTO
AURORA
PAIXÃO NEFELIBATA
DESEJO
FRUTOS

Veja outros poemas & canções de amor por ela.

quarta-feira, dezembro 12, 2007



Ginofagia (Poemiudinhos). In: Crônica de amor por ela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Arte: Derinha Rocha.

Pessoamiga,
Para você que ama e quer em 2008 que tudo dê certo no amor, veja as simpatias e previsões do Doro para o seu signo em 2008. Sorria & seja feliz no ano novo!

SIMPATIA TIRO E QUEDA – PARA FAZER SUCESSO NO AMOR EM 2008
A SIMPATIA DA VIRADA DO ANO
PEIXES
AQUÁRIO
CAPRICORNIO
SAGITÁRIO
ESCORPIÃO
LIBRA
VIRGEM
LEÃO
CÂNCER
GÊMEOS
TOURO
ÁRIES

Veja mais Ginofagia.

terça-feira, dezembro 11, 2007



Imagen: Delirium, 2002, do fotógrafo italiano Aldo Palazzolo (1948).

A MENINA DOS OLHOS DO BOCEJO ETERNO

...pois já que tu és
a promessa de um sonho por se realizar
pra viver e ser feliz
e jamais será fuga de um beijo
ou desejo fugaz
enquanto não se chora uma dor
a gente poderá ser feliz
muito mais...


Luiz Alberto Machado

A platéia estava repleta de estudantes secundaristas e eu, mais reboculoso que meu próprio tamanho, tão espaçoso de quase não caber na tribuna, inchado de idéias e defendendo o meu peixe a recitar versos e vociferando despautérios que sempre julguei convenientes na minha utópica doidice, como de que só a arte e a educação seriam as principais alavancas para uma humanização mais cônscia de participação do indivíduo, defendendo veementemente, no meu discurso tresloucado, a natureza, a vida sustentada em bases sólidas de visão aberta, a justiça social proporcionando uma possível paridade entre ricos e pobres, de direitos e deveres bem distribuídos, na consciência da nossa inutilidade, finitude e insignificância perante a amplitude do universo, entre outras coisas esdrúxulas da minha frenética geringonça intelectual, chega dava para notar a zarolhice dos presentes aos meus desvarios intelectuais.
No meio de tanta cabeleira, olhares e fungados juntos no recinto, eis que, na segunda fila, eu vira uma alminha singela, uma Britney Spears que estava hipnotizada com a minha oratória.
Com o olhar firme, ela nem piscava e isso me enchia de pernas, maior embaraço. A cada olhadela, ela lá firme fisgando, arrancando minhas entranhas, desnudando-me inteiro. Endoidei de vez, então.
Ela, por isso, foi responsável por ampliar ainda mais a minha confusão mental, de quase perder o fio da meada e toda racionalidade, enrolando-me no meu próprio labirinto.
Seu olhar roubava minhas idéias, fragmentando meus neurônios numa encruzilhada entre a razão e a emoção, fazendo-me buscar um esforço descomunal para concatená-las e conseguir uma linearidade de pensamento que fosse, pelo menos, coerente com o que eu havia proposto naquela palestra, que nada, metendo as mãos pelas pernas qual bípede energúmeno resultava, deus meu.
Eu, que reconhecidamente nunca fora papa-anjo, avalie, estava abestalhado com aquela cândida figurinha.
Nossa! Como é linda a juventude, a vitalidade, a vida saltando pela manifestação presente daquela pessoínha singela viva, tomando conta de todos os sentidos e atenções.
Consegui mesmo assim, aos trancos e barrancos, estancando e empurrando, debreando e acelerando, finalmente concluir minha falácia, ficando a disposição dos presentes para a sabatina regular.
Perguntaram disso, daquilo, despropósitos, insinuações, se eu acreditava em deus; o que me fez virar poeta; qual a razão de escrever mediante alto índice de analfabetos e esfomeados; que razão teria para dizer minhas asneiras contra a parede inexorável da indiferença; e outras tantas inquirições que fui, aos poucos, levado a revelar minhas peraltices despropositais. Riam-se. Por fim, aplausos. Obrigado.
Ao término dos trabalhos, surpreso com tudo e tolhido por alguns curiosos que queriam que lhes autografasse meus livros; outros, uma fotografia; uns querendo se aprofundar no obscuro mundo das minhas idéias malucas; e coisa e tal, até que ela, alminha singela bulindo, atanazando com meu tino, trouxe-me o exemplar do meu penúltimo livro de poesias para o respectivo autógrafo.
- Seu nome, por favor?
- Cecília.
- Belo nome, casa bem com sua bela fisionomia.
- Obrigada. O que o senhor está achando de Aracaju?
- Em primeiro lugar, o senhor está no céu e eu sou um frágil semideus e olhe lá, com a serasa dos pecados pesadíssima e quase sem fim. Portanto, menos formalidade, por favor. Em segundo, adoro Aracaju, tenho vindo sempre que posso rever amigos, comer guaiamum e poder desfrutar das coisas daqui.
- Se não for incômodo, escritor, eu gostaria que você colocasse depois da dedicatória, o hotel onde está hospedado ou seu telefone celular. Gostaria de realizar uma entrevista para o jornalzinho que a gente mantém no colégio. Eu e uma turma escolhemos por jornalismo e já estamos vivenciando a profissão.
- Claro, com todo prazer.
Rabisquei algo na folha de rosto do livro e mencionei o hotel e o celular onde eu poderia ser encontrado para a vindoura entrevista requisitada pela jovem simpática. Despediu-se e zarpou fora.
A comissão organizadora do evento levou-me para um restaurante onde bebericamos além da conta. E, já de madrugada, largaram-me no hotel.
O interfone estridulante acordou-me pela manhã. Quem seria àquela hora? Não se pode mais dormir? Atendi.
- Bom dia, senhor, tem uma visita aqui na recepção.
- Que horas são?
- Onze horas, senhor!
- Eita! Já? Por favor, mande subir.
- Pois não, senhor.
Nem me levantei nem nada. Devia ser alguém da comissão que organizou a palestra querendo me levar para almoçar. Eu que acostumava acordar cedo, lá pelas três da madruga, estava aboletado na cama ainda àquela hora. Era estranho, o ar de Aracaju me fazia bem. Estava bem acomodado, deveras satisfeito e com as idéias zeradas no quengo. Nada para me lamentar, nenhuma reminiscência incomodando, nenhum compromisso previsto pelas próximas vinte e quatro horas, pelo menos, e uma indolência não peculiar ao meu comportamento vexado. Estava ali, entregue. Quando tocasse a campanhia eu mandaria entrar já que eu possuía o costume de dormir com a porta fechada apenas pelo trinco. A minha indisposição não permitia que me desligasse daquela cama, da fronha e do lençol confortáveis.
Fiquei ali arriado, pensando no que me perturbariam. Cochilei com a demora.
Dlin dlon! A sineta tocou e mandei entrar, aos berros.
Alguém entrou, não vi, nem dei por menos. Não sei quanto tempo ficou, deve de ter esperado um bom bocado porque cochilava.
- Vai querer fazer a entrevista assim mesmo?
Era uma vozinha determinada imprimindo um domínio sobre si e o seu destino. O que? Uma mulher? Assustei-me e levantei a cabeça escondida no cobertor. Era Cecília.
- Desculpe importuná-lo a esta hora, mas foi você quem marcou comigo. Se quiser deixar para outro momento, por mim, tudo bem.
Aquela figura fofinha quase que me provoca um colapso de tão atônito que me encontrava. Estava desarmado, não imaginava que havia bebido tanto a ponto de esquecê-la e do nosso compromisso.
- Não, não, tudo bem, aguarde só um instante. Quiser beber alguma coisa, tem ali no frigobar, vou só tomar um banho e volto num instante.
- Tudo bem.
Ainda vi quando se dirigiu com uma saínha curta e justa até a geladeira e retirou de lá uma cerveja, destampando-a e, elegantemente, começou a beber no gargalo, sentando-se, depois, na poltrona rente à cama.
Dei uma olhadela antes de entrar no banheiro e pude constatar que aquela monumental e cândida pessoa estava ali me enchendo de pernas, atiçando minha loucura, jogando o senso pro escanteio.
Nossa, pensei cá comigo, pin-up sagrada dessa, qualquer demônio faz a festa!
O chuveiro estava me restaurando as energias. Com o seu jeito tomando conta dos meus sentidos demorei um bocado no banho, tentando reavivar meu ímpeto, organizar as idéias, extirpar o desconforto de ser surpreendido em tal circunstância.
Ao término enrolei-me na toalha e fui até o seu encontro.
- Desculpe a demora, detesto fazer alguém esperar.
- Tudo bem.
Sua resposta dava a impressão de uma constituição firme e duma natureza faiscante e impetuosa, por trás daquele corpinho púbere cheio de força de vontade e, aparentemente, com o dom de levar avante empreendimentos mesmo contra grandes obstáculos. Parecia estimulada, audaciosa, confiante, infatigável, no encalço de um ideal.
- Pode ser aqui mesmo? -, perguntei desconfiado.
- Claro! Você é quem sabe! -, respondeu firme.
- Então, vamos lá!
Voltei para a cama não antes pegar uma cerveja na freezer e me envolvi nos lençóis da cama, jogando a toalha de banho no chão.
Ela meteu a mão no seu tiracolo e retirou de lá um caderninho de notas e um gravador portátil que depositou perto de mim na cama.
Senti-lhe o perfume e o viço inebriando a minha alma. Pensei cá comigo: - Isso é uma provocação! Com certeza, está me chamando de banguelo. Que desarrumação provoca dentro de mim! Linda, linda, linda!!
Voltou-se, calma e elegantemente, para a poltrona e começou por inquirir tudo do que imaginasse. Enquanto indagava minha vida, minhas preferências, minhas obras, meus pensamentos, meus projetos, via-lhe os detalhes anatômicos, a calcinha branca mostrada pela brecha deixada entre as pernas cruzadas; a ponta do sutiã branquinho pelo desabotoado da blusa, mostrando uns peitinhos estufados no interior dela; a meia delicada dobrada nas bordas do tênis; a batata da perna roliça, os joelhos, as coxas, a meiguice arruivada dela, a sua pequena estatura, a sua epiderme alvinha, seu gesto calmo ingerindo a pilsen, tudo no seu devido lugar.
Fiquei bestificado com a assimetria elegante de seu ser. Com certeza, deus havia sido generoso com sua fôrma.
- Desculpe -, atrapalhei seu interrogatório a meu respeito. - gostaria de matar uma curiosidade minha, qual a sua idade?
- Dezenove e estou concluindo o colegial, me preparando para o vestibular de jornalismo.
- Quanta vitalidade, hem? Desculpe a licenciosidade, pode continuar a entrevista.
E foi o maior blábláblá, curiosidades, por quê isso, pra quê aquilo, por onde, o que acha, o que espera e por aí vai.
Minha geladinha acabou e ela, cortesmente, foi até onde poderia buscar outra e me entregou, conferindo se o gravador ainda estava com a fita rodando, notando que havia terminado o lado, trocando de pista e continuando na inquisição.
Já amou? Que tipo de mulher lhe apraz? Loura ou morena? Quando foi sua primeira vez? Qual a regularidade de sua atividade sexual?
Êpa, mais parecia que ela me tratava por um velho, fiz-lhe ver que possuía apenas trinta e poucos anos, quase beirando aos quarenta e que estava bastante satisfeito com a entrevista, se bem que, apesar de longe de ser um Vinícius de Morais, estava adorando estar na cama com uma jovem tão bela que perscrutava minha pessoa.
Faltando apenas cinco minutos para as duas da tarde, ousei convidar-lhe para almoçar.
- Tudo bem.
- Dois minutos só para eu me aprontar.
- Tudo bem.
Peguei uma bermuda, vesti-a no banheiro, voltei, calcei um tênis, vesti uma camiseta.
Enquanto me aprontava, sentia seu olhar pregado nas minhas atitudes. Umas duas vezes ruborizei com a sua fixação. Até que me ajeitei e descemos pelo elevador, eu fisgado e sem jeito, ela ali pregada com a pontaria aguçada, tiro ao alvo, apontada toda para mim, quando resolvi fitar-lhe da mesma forma. Senti o choque rasgando meus nervos, arrepiando minha espinha dorsal, revolvendo minhas entranhas, aprisionando minha timidez, oito andares de flerte e sedução, até que a porta abriu-se, estávamos no térreo e nos dirigimos até a portaria, onde entreguei as chaves do apartamento e atravessamos, lado a lado, a via pública, rumo a um restaurante na beira da praia de Atalaia Velha.
O esforço em ganharmos o outro lado da avenida fez com que fizéssemos algumas estripulias juvenis, proporcionando que suássemos e, ela, pronunciasse mais a sua sensualidade.
Parece que o sol quente erotizava nossos corpos. Eu me continha o mais que podia. Ela, exuberante. Dava para notar sua vitaminada compleição quando se sentou à minha frente, exultante e linda, provocando meus mais safados desejos.
Enquanto conversávamos amenidades, bebericamos, almoçamos, continuamos a conversar longa e apaixonadamente, ao que, lá pelas cinco horas da tarde, pedi-lhe que caminhássemos um pouco pela orla. Eu estava enfeitiçado, precisava desentrevar os quereres que se encontravam rijos, suplicando por seus dotes, seu corpo, sua alma.
- Tudo bem.
Seguimos pela calçada admirando o crepúsculo sergipano estreitando cada vez mais nossas afinidades. Quantas? Todas. Estávamos extremamente gentis e, ao que parece, apaixonados. Eu, pelo menos, já entregara os pontos. Ela, saindo pelos poros.
Quase uma hora e meia de caminhada, ela me indicou um barzinho climático na orla. Seguimos para lá, bebemos até alta noite, conversando miolo de pote, situações picantes, desnudamentos, simpatias e repulsas. Foi aí que soube das muitas adversidades que lhe tolhiam e que desafiava tudo com seu espírito combativo, rompendo o intransponível de forma encorajadora e estimulada. Descobri que adorava competições de forma soberana desafiando-me a uma partida de xadrez, se ganhasse ela comemoraria a sua conquista. Vangloriava-se dos seus feitos, deixando claro nunca vacilar ou arriscando seus altos interesses de se tornar uma jornalista renomada.
Lá pela uma hora da manhã pediu-me para ir embora, claro, paguei a conta e chamei um táxi para que nos levasse. Ela entrou no banco de trás me puxando pela mão. Disse ao motorista o endereço e, quinze minutos depois, estava eu deixando ela em casa. Deu-me um beijo na face, disse-me um até amanhã gentil e esgueirou-se portão adentro.
Pedi ao motorista que retornasse para Atalaia para me deixar no hotel.
Na portaria havia um punhado de recados que deixei para vê-los no dia seguinte. O celular que me esquecera também deveria ter entupido a secretária eletrônica. Deixei para lá encantado com aquela imagem boa de Cecília. Adormeci sonhando com a garota.
O barulho estonteante do interfone arrancou-me do devaneio que entorpecia e me dava um outro sentido na vida.
- Pois não?
- Bom dia, senhor, sua visita está aqui!
- Que horas são?
- Dez e quarenta, senhor.
- Eita? Dormi demais de novo, mande-a subir, por favor.
- Pois não.
Fiquei mergulhado entre os lençóis da cama, imaginando como poderia fazer com que aquele dia fosse tão prazeroso quanto o anterior.
Dlin dlon! Que rapidez? Pode entrar, está aberta.
- Boooom diiiiiiiaaaaaa! -, era Cecília exultante. Mais bela que nunca. Avançou no ambiente e beijou-me a face. Seu perfume, mais inebriante que sempre.
- Bom dia, fofinha! Como passou a noite?
- Melhor jamais existira!
- É mesmo? Que bom!
Sua ânima reacendeu em mim a alegria da juventude.
Levantei-me, fitei-lhe firme e fui até o banheiro, onde me lavei com determinação e saí enrolado na toalha.
Ela estava bisbilhotando os recados que eu havia recolhido na recepção.
- Olhe, tem uma pessoa aqui que diz ter descoberto o endereço da escritora Núbia Marques.
- É um amigo meu, eu queria conhecer a escritora...
- Por que não me disse, eu sei onde ela mora, acredito que hoje ela esteja em Portugal. Olhe, aqui tem um recado do professor João Costa dizendo para você entrar em contato com a professora Sônia van Dijck. Quem é essa?
- É uma professora paraibana que conheci pela internet que escreveu uns livros sobre Hermilo.
- Tem aqui um boletim do Edmo Menor, um livro do Danilo Sampaio, um recado da Malva Barros sobre o Armazém Literário e um cartão do Nivaldo Menezes.
- Bom...
Liguei o celular para ver os recados na secretária eletrônica e era Rolandry avisando do encontro em Recife na segunda-feira; do pessoal do Sesc me lembrando da Feira do Livro Infantil; do Ari pedindo o endereço da Arriete; do meu primo Marquinhos pedindo duas músicas para completar seu cd; do Juarez Correya cobrando a poesia viva de Maceió; e mais tantos outros que fui anotando na agenda para providenciar quando retornasse.
- Podemos continuar a nossa entrevista?
- E ainda tem perguntas para mim?
- Claro, ou você acha que acabou?
- Tudo bem, menina, o que você quer saber mais sobre este reles sujeito aqui?
Sacou da bolsa o bloco de notas e largou o gravador perto de mim.
Sentou-se, foi quando pude ver a blusa branca que vestia com um poema meu, deixando os bicos pontiagudos dos seios a denunciar a ausência de bustiê; uma saia jeans e uma sandália de salto com tiras amarradas até o mocotó. Não deixou por menos e expôs sua curiosidade extrema.
Sua aura resplandecia na minha retina. Estava eu com a garganta seca, pigarreando, peguei dum cigarro e pedi-lhe uma beer. Deu-me elegantemente, senti-lhe o aroma de carne boa e sedutora, e entre os lençóis me amufanhei, segurando meus mais loucos e extravagantes desejos.
Ping-pong.
Já havia tomado três latinhas de cerveja; ela, cinco; quando me convidou para caminhar.
Fiz um esforço para levantar-me e me banhei demoradamente, aprontei-me e saímos no calçadão pelo mormaço da tarde.
Esta seria a última tarde daquela estadia em Aracaju.
Quando mencionei isso notei que ela entristeceu.
Aportamos num barzinho da orla e bebemos até noite grande.
- Por que você tem que voltar?
- Tenho afazeres outros.
- Quais?
- Preciso estar na Febralivro de Fortaleza; tenho que me apresentar na Feira do Livro Infantil, do Sesc, em Maceió; preciso organizar a publicação de uns livros; selecionar umas músicas para gravação de um cd; e várias dezenas de compromissos agendados.
- Você gosta de Aracaju?
- Claro!
- Você gosta de mim?
- Mais do que você imagina.
Sorriu aquele riso de quem ficou satisfeita.
Recolheu o carderninho e o gravador na bolsa, deixou tudo lá na cadeira ao lado e levantou-se sem dizer nada. Desapareceu lá para dentro.
Alguns minutos depois retornou e fitou-me profundamente. Fiquei embaraçado com aquilo. Ela pegou um dos meus cigarros e tragou, tossindo.
- Quem não tem o vício de fumar, não deve fumar!
Controlou os tragos e continuou baforando na minha cara. Ingeriu o copo inteiro de uma só vez e levantou-se como se tivesse alcançado uma conquista insuperável. Era o seu troféu.
- Quando você vai partir?
- Amanhã de manhã.
A minha resposta deixou-a taciturna. Pensativa, demonstrava certo nervosismo.
- A que horas?
- Não sei, a hora que acordar!
- Tudo bem.
Algo havia clareado em seu semblante, retornando o viço e a alegria que lhe eram peculiares. Foi aí que falou pelos cotovelos. Eu adorava ouvir-lhe, desatou em confidências lascivas, contou-me de suas decepções e, não resistindo, largou-me um beijo na boca demorado. Estava totalmente entregue à minha sanha, eu sabia. Deu-me todo o seu segredo naquele beijo ardente.
Depois, pegou da bolsa e zarpou sem dizer palavras.
Fiquei paralisado. Quando dei por mim ela já havia desaparecido. Não sabia seu endereço, aliás, levara-lhe em casa na noite anterior, mas jamais saberia onde ficara, nem onde encontrá-la, muito menos o número do seu telefone. Que pena. Escorreu pelas minhas mãos sem dizer adeus.
Saí do bar e fui caminhando até o hotel.
Muitos bilhetes me foram entregues, fiz um bolo e os enverguei na mão. Estava marasmódico.
No apartamento, sentei-me na poltrona e peguei da bebida até adormecer.
Acordei sem ser incomodado, abri a persiana, era dia forte, acho que mais de meio-dia.
- É da portaria?
- Sim.
- Por favor, que horas são?
- Doze e quarenta.
- Obrigado.
- Alguém me procurou agora de manhã?
- Não, senhor.
- Obrigado, feche a minha conta que já vou partir.
Arrumei meus basculhos e repassei os bilhetes. No meio deles havia um com a seguinte inscrição: eu te amei, apesar das armadilhas que perseguem todo amor... sua. Era um trecho da minha canção, devia ser Cecília. Cadê-la? Escafedeu. Eu não conhecia suficiente Aracaju para decorar-lhe a residência. Iria embora sem dizer adeus.
Desci, minha conta já estava acertada pelos organizadores, só tive o trabalho de pegar um táxi até o aeroporto e zarpar de volta.
O tempo passou. Alguns meses depois o celular dá seu trinado.
- Feliz aniversário!
- Obrigado.
- Sabe quem é?
- Nem imagino!
- Nunca mais você foi a Aracaju.
- É verdade.
- Eu estou aqui.
- Aonde?
- Na sua cidade.
- Onde?
- Esperando você para lhe entregar seu presente.
- Cecília?
- Lembrou-se! Até que enfim! Até que enfim!
- Onde você está?
- Use de sua criatividade, descubra! Vim entregar seu presente pessoalmente.
- Onde?
- Vou lhe dar uma dica: onde eu estou, é na praia mais nobre de sua cidade, num bar onde você comemorou sua primeira música gravada por um amigo, tomando um chope e mais: estou ansiando por beijar-lhe todo.
- Deixe ver, hum...
- Outra dica: estou hospedada no hotel que você costumava se hospedar que fica entre o aeroporto e a praia que eu estou.
- Chego já!
Parti, sabia onde ela estava. Como descobrira isso?
Dez minutos depois estava eu frente a frente com aquela coisinha fofa, capaz de me virar a cabeça. Ela me abraçou com lágrimas nos olhos. Bebemos até ficarmos tontos.
- Quer receber o seu presente?
- Não se incomode com isso!
- Quer ou não quer?
- O que vier de você será bom demais pra mim.
- Leve-me daqui para onde quiser.
- É?
- É.
Fiquei impressionado. Por um instante titubiei. Ingeri alguns copos da cerveja dela e matutei o que fazer. Fechei a conta e levei a linda moça até meu carro, conduzindo-a por algumas interessantes paisagens até o motel mais próximo.
Ao adentrarmos em nossa alcova exclusiva, ela agarrou-me pelo pescoço e beijou-me incessantemente. Não me contive e retribuí-lhe os carinhos.
Seu perfume embalou meus sentimentos, entregue à sua sedução. Não me furtava a largar aqueles lábios sedosos, beijando-lhe com avidez. Era tanta saudade. Mútua. Agarrada ao meu corpo não ousou afastar um milímetro sequer. Nos desvestimos aos poucos, largando tudo a esmo, descompromissados. Fizemos dos nossos corpos nosso casulo íntimo de uma só unidade. Éramos um, então, na ensolarada manhã de maio.

© Luiz Alberto Machado. Direitos Reservados.

Veja mais Rol da Paixão.

segunda-feira, dezembro 10, 2007



Imagem: The Broken Column, 1944 (Museo Dolores Olmedo Patino Mexico, Mexico City, Mexico) da pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954).

O amor é masoquista. Esses gritos, lamentos, doces sustos, esse estado de angústia dos amantes, esse estado de espera, esse sofrimento latente, subentendido, mal-e-mal expresso, essas mil inquietações acerca da ausência do seu amado, essa fuga do tempo, essas suscetibilidades, essas variações de humor, esses devaneios, essas criancices, essa tortura moral em que a vaidade e o amor-próprio estão em jogo, a honra, a educação, o pudor, esse fetichismo, essa precisão cruel dos sentidos que flagelam e vasculham, essa queda, essa prostração, essa abdicação, esse aviltamento, essa perda e retomada incessante da personalidade, esses gaguejos, essas palavras, essas frases, esse emprego do diminutivo, essa familiaridade, essas hesitações no tocar, esse estremecimento epiléptico, essas recaídas sucessivas e multiplicadas, essa paixão mais e mais tormentosa cujas devastações vão piorando até o completo bloqueio, o completo aniquilamento da alma, até a atonia dos sentidos, até o esgotamento da medula, ao vazio cerebral, destruição, mutilação, essa necessidade de efusão, adoração, misticismo, essa insatisfação que recorre à hiperirritabilidade das mucosas, aos desvarios do gosto, às desordens vaso-motrizes ou periféricas e que apela para o ciúme e a vingança, os crimes, as mentiras, as traições, essa idolatria, essa melancolia incurável, essa apatia, ess profunda miséria moral, essa dúvida definitiva e aflitiva, esse desespero, esses estigmas todos, acaso não são exatamente os sintomas do amor, segundo os quais é possível diagnostricar, e então traçar com segurança o quadro clinico do masoquismo? (...) O amor não tem outro objetivo e, sendo o amor a única motibação da natureza, a única lei do universo é o masoquismo. É destruição, nada, esse escoamento inesgotável dos seres; são sofrimentos, crueldades inúteis, essa diversidade das formas, essas adaptação lenta, penosa, ilógica, absurda da evolução dos seres. Quando se ama é preciso partir”. (Blaise Cendrars, Morravagin).

Veja mais Blaise Cendrars no Tataritaritatá!

sexta-feira, dezembro 07, 2007



Imagem: The sleep, 1897, do pintor impressionista francês, Pierre-Auguste Renoir (1841-1919).

ALCOVA

II

LOUVAÇÃO À MULHER AMADA
(Ritual erótico & tributo ao amor).

Luiz Alberto Machado


Hoje eu quero louvar a mulher amada
A mulher amada que merece ser louvada na toada da alcova: tributo ao amor.

Sim, um tributo ao amor que queima na gente o momento da glória no milagre de todas as formas de amor.

O amor que aviva no sangue o afeto onde o amor prospera vida, canora mistura.

O amor que é a nossa mútua e perene entrega.
O amor que é a escolha pelo prazer de viver.

Escute, me dê licença:
Quero louvar a mulher amada que é o meu andor, porque Deus foi minucioso nessa obra-prima que, de tão perfeita, todas as maravilhas até parecem rendidas depois dela.

E louvo e torno a louvar!

Louvo o jeito delicioso de ser criatura onde busquei suas nascentes e dentro das suas manhãs inteiras meu mundo se refez.

Louvo o olhar de faíscas prementes que disparam meu coração desgarrado correndo o risco na ebriedade magistral da sua soberania absoluta.

Louvo a boca mimosa, acasaladora, caleidoscópio de formas e matizes que me persegue desde que nasci com seu jeito fogoso, gulosa do meu cheiro e gozo, gostosa.

Louvo os seios de fera amansada com exageros de meiguices, demasias de afagos na guarida terna onde sonho outras e todas as vontades.

Louvo o ventre cadela no cio do grelo minando e eu cativeiro com meu prego caibral metido na emenda do seu bornal como garanhão cobrindo a égua que a gente monta com todas as tretas e fodeções gozosas.

Louvo a maravilha de corpo que me farto com agarrações desembestadas, esfregações insultantes dela ascender nos gozos, tesuda, aos píncaros de todos os limites cosmogônicos.

Louvo e é de se gabar por mil noites, mil dias, toda vida.

É de se louvar pela centésima vez esse gesto lindo de moça fagueira que semelha pra mim o que me dera vida enchendo a bisaca a curtir seu vinho de voz terna na mais franca nudez provocadora.

É de se louvar pela milésima vez esse prazer maravilha se achegando vadia, safada, caindo de boca, puta trepadeira cumulada de prazeres para o ritual de nossos cantos e comunhões nas sacanagens das perversas fornicações.

É de se louvar pela zilionésima vez por todas as vezes sacudido de todas as maneiras além da existência para a plenitude de viver o gozo esplendente de amar a mulher amada.


© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

Veja mais Crônica de amor por ela.

quinta-feira, dezembro 06, 2007



Imagem: Jovem com braço levantado, de Cícero Dias.

CANÇÕES & POEMAS DE AMOR POR ELA

“(...) Venha úmida do primeiro dia”. (Jorge de Lima, A distância da bem-amada).

FONTE
SERENAR
ARMADILHAS
FRUTOS
EU TE AMO
PERFUME DE MULHER
ALEGORIA DA LOUCURA
MERGULHO

Veja mais Músicas & Poemas de Amor Por Ela.

quarta-feira, dezembro 05, 2007



Ginofagia (Poemiudinhos). In: Crônica de amor por ela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Arte: Derinha Rocha.

TRES HAI KAIS DE OLGA SAVARY

EM USO
Não acredito em empertigadas metafísicas mas numa alta sensualidade posta em uso: que o meu homem sempre esteja em riste e eu sempre úmida para o meu homem.

ECCE FEMINA
Na rua, dama; puta na cama. Na rua, guerreira; na cama, cordeiro. Na rua/na cama, inteira.

A ÁGUA
Se enovela pelas pernas em fio de vigor espiralado sobre o ventre e alto das coxas. O orgasmo é quem mede força sem ter ímpeto contra a água.

SAVARY, Olga. Hai Kais. São Paulo: Roswita Kempf, 1986.

Veja mais Ginofagia. Veja mais Olga Savary. E se divirta com as simpatias e previsões do Doro para 2008. E vem aí o Reveillon Tataritaritatá!!!

terça-feira, dezembro 04, 2007



Imagem: foto de Derinha Rocha.

MINISSAIA

Luiz Alberto Machado

Naquela manhã ela chegara com o sol na carne. Não fosse aquela minissaia, por certo, nada teria acontecido fora do normal. Mas aconteceu. Tudo por causa da irradiação sedutora que exalava daquela candura de gente naquele momento mais encantador no tope da poesia de sua própria emanação.
De fato ela chegara, como de costume, para alegrar a vida dos que ali se enfurnavam por anos na labuta intragável.
Eu mesmo, desde que ela fora admitida na repartição, que fui contemplado por uma motivação nunca dantes sentida, para, ali, estar arduamente todos os dias. Mas naquele dia ela passara da conta.
Por certo, não fosse aquela minissaia o mundo jamais seria o mesmo e eu jamais teria ousado além da minha timidez.
É certo também que não havia quem não lhe dedicasse atenção. Muito menos quem não lhe acenasse simpatia, não lhe quisesse com afeto e ternura. Isso porque ela sempre fora a figura encantadora que envolvia as pessoas com a magnitude de sua gentileza e carinho.
Todos, sem exceção alguma, todos, inclusive os chatos de galocha, os superiores necrófilos, os misóginos enrustidos, todos adoravam aquele seu jeito doce de ser: uma lindeza fora do comum.
Verdade. E naquele dia, realmente, ela passara da conta. Tudo por causa de uma minissaia.
Se já se flagrava dela uma boniteza acima do usual e que perfumava o ambiente de trabalho, que coloria as horas mórbidas da rotina, incendiava os ânimos mais enterrados, iluminava a vontade de viver recôndita na carestia, tudo isso e ainda mais futucava paixões remotas em seres embrutecidos. Nossa, era demais mesmo.
Réu confesso, eu posso dizer que já era um dos mais agudos sujeitos afeiçoados por tudo que ela representava de lindo, de sedutor, de apaixonante, de maravilhoso além do limite de todas espetacularidades concebidas. A tal ponto de sua mínima aproximação provocar o mais louco descontrole em mim.
Nossa, cada vez que ela chegava ao meu lado, tudo revolucionava. E reitero que eu mesmo não me continha e logo procurava esconder a tesão que se insinuava no meu membro, deixando-me atordoado com tanta sedução ali imantando todo o meu desejo.
Tanto é que se há uma palavra que possa legitimar toda singularidade da sua beleza, confesso que não há como se definir num único termo, pois o que há de fantástico, o que se der por extraordinário, o que se mensurar por insuperável, ali, naquela pessoa, reduzia-se ao simplesmente magnífico jeito de ser próximo da imortalidade cândida dos contemplados da magnitude dos deuses.
Foi tanta sedução que não resisti cobiçar tudo além daquela blusinha de alça coladinha no tronco, delineando-lhe os apetitosos seios com ductos salientes acedendo a minha libido.
Com o umbigo exposto no centro da estonteante plataforma corporal que dava na sugestão de uma mina púbica para lá de farta e coberta por uma minissaia que guardava apenas o necessário para insinuar a revelação mais esplendorosa de todas as missões iniciáticas.
Ah, tudo estonteantemente muito devastador, desde os pés de uma delicadeza aconchegante, das pernas torneadas a convidar passos no mundo de todas as lonjuras, coxas de pele acetinada a dar com o limite na minissaia junto ao encontro delas para realçar-lhe toda sedução que começava no olhar querente incendiando todos, nos lábios de Angelina Jolie, no rosto angelical de Mônica Bellucci, ah quanta loucura prestes a explodir.
Foi quando a tarde veio no meio da loucura e na impossibilidade de conter as amarras, recorri dela para me acompanhar nos afazeres externos, ao que fiquei feliz com sua aquiescência.
- Que legal, estava precisando de uma carona para resolver umas coisinhas. E o melhor: vai dar certinho no seu itinerário!
Nossa, que coincidência, havia algo de diabólico no ar para dar tão certo, ao passo que sempre dera tudo errado para minha banda. Pé na taboa, a oportunidade não se perdera.
Ela entrou com jeito top model no assento dianteiro da kombi, ao meu lado, mostrando logo a pontinha de sua calcinha branca que insinuava toda gostosura protegida, enquanto eu me denunciava com o boticão de olho naquela deliciosíssima fonte sob mil e uma peripécia comendo no centro do meu cérebro enlouquecido com o cenário mais altissonante de todas as cenas luxuriosas que se possam existir.
Evidentemente que ela percebera a minha fixação no seu tufo desejoso como se ali residisse todo segredo da botija de seu corpo. E esse flagra surtiu efeito e ela parece que mais desleixava um jeito para lá de conivente com a minha volúpia, gesticulando mais que sempre, ajeitando o decote da blusa, apertando mais a minissaia já colada, minúscula e rente a tudo que houvesse de maravilhoso no mundo.
Ah. E sorria um riso largo com tudo que eu inventasse dizer naquela hora para que eu me deliciasse com ela cada vez mais linda e acessível, combinação perfeita.
Mãos bobas, lábios errantes cruzando o triz, perna roçando perna, tudo timidamente insinuando entregas de carícias aqui e ali, descompromissados dos afazeres, ela indo e vindo no turbilhão de ânsias, tudo se confundindo de vitalidade, luxúria e estertor.
No meio desse bombardeamento, respiramos molhando o íntimo de nossos quereres enquanto uma cerveja apaziguava os queimores instantâneos na garganta, ao passo que nos revelava efusivos, largados, despojados e eu levitando no close da sua intimidade cada vez mais exposta para o meu regalo exploratório.
Sei que nos aboletamos nalgum lugar em uma das mesas mais afastada dali e ficamos bebericando enquanto eu mergulhava no seu olhar e nadava nas ondas mais movediças dos maremotos mais ruidosos.
Eu viajava no som da sua fala como que embalado pela ária mais etérea de encantamento humano.
Eu bordejava pelas curvas do seu rosto e me despencava na geografia do seu corpo como o cosmonauta mais insone de todas as galáxias.
Ao perceber todo meu encantamento, ela passou-me as mãos pelos olhos e me disse:
- Acorda!
Tomei um susto. Evidente que ela havia percebido que eu estava enfeitiçado. Não se fez de rogada, trouxe-me seu copo à boca, bebi e senti-lhe a primeira ponta do sabor.
- Gostou? -, perguntou-me.
- Adorei seu sabor.
- Ah, é?
Então ali os seus lábios enleavam a dança na rotação do meus sentidos que se seguravam na translação iridescente da sua nudez que suguei como quem apetece o mel de sua alma de abelha-mestra. E percorri seus seios à beça com a minha boca sedenta que baldeou sua imensidão despudoradamente com todas as carícias do meu ser rijo a transgredir sua saia e correndo o risco de alcançar o interior da calcinha que vai escondendo a diáfana gruta de veludo que me captava com bruscos movimentos de suas pernas errantes e quadris indomáveis a me lambuzar com a vontade gigantesca do seu prazer no que há de mais alvino e saboroso para o apetite nas encostas da caverna mais deliciosamente abocanhada para me fartar domador de feras na rota austral do encontro piaçabuçu de sua íntima rede potâmica, quando vou pistão lubrificado pelo carter da sua cambota, imergindo na sua câmara de combustão até o escape com toda força de tração para o apogeu de nossas almas incendiadas.
Ali nos agarramos um ao outro com beliscões ousados, mordiscantes gestos, todos os puxavanques carinhosos de remexidos cambaleantes e agarramentos famintos a nos esfregar na sacada do prédio, a nos desnudar na penumbra do quarto e a nos curtir com a loucura do trânsito que é onda de mar onde surfamos traquinos até que vençamos a última instância do nosso gozo irrefreável a quedarmos vencidos um na premência do outro.
O mundo rodou com a nossa querência. Era bom demais para ser desastroso. Não conseguia largar de mim nem dela naquela loucura de redemoinho delicioso.
Éramos retirados dos escombros ainda enlevados por tudo e levados para observação médica.
Nosso olhar se cruzou e ela, delirantemente, me sussurrou:
- Não dá para perceber nada na vida além...
- Não dá mesmo -, concordei.
A kombi fora dada com perda total. Nós dois incólumes do acidente estávamos mais que levados pela luxúria da nossa entrega.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais Rol da Paixão. E se divirta com a simpatia para o ano novo e as previsões do Doro para 2008 de todos os signos.

segunda-feira, dezembro 03, 2007



UMA IMAGEM & DOIS POEMAS DA MARIZA LOURENÇO

novamente em tua boca
aberta entre as pernas
: a flor
e vai a vida, sem espinhos, sem cócegas, sem cheiros. entre as pernas convenientemente fechadas uma flor respira aos solavancos. sobrevive, não se sabe como, entre escombros de lutas e lembranças mornas. e quem pode com a vida? e quem sabe dela? ninguém, nem o espinho que surge de inopino, ou o cheiro manso de orvalho que desponta em meio à aridez de mil e tantas noites sem amor.
quem sabe, afinal, da vida? ou das surpresas que se revelam instantes úmidos? quem sabe, talvez, a boca. tua. ou a tua mão. artífices perfeitos para acordar quem dorme. para molhar de gozo a rosa inculta, bela. e minha.
e vem a vida, assim, com todos os espinhos, cheiros, e uma saudade faminta de ti. da mão que abre as pernas. da boca que rega a flor.
a minha (e tua) rosa.

e que seja sempre assim, a vida. acordada e em desacordo com o tempo que não passa enquanto tu não vens.
(Mariza Lourenço, de rosas).

querem-me nua. vintequatrohoras. nua. entre palavras e escândalos. como se em mim não existissem vestes e pudores brancos. como se o vermelho fosse minha eterna sina.
eu sou um verbo deflorado. uma puta. um regalo.
eu sou uma mulherzinha

(Mariza Lourenço, Uma putinha só).

Veja mais Mariza Lourenço.

E também canções e poemas do Crônica de Amor Por Ela no VIMEO, acessando:

QUANDO TE VI
ARDÊNCIA
COBIÇA
AURORA
PONTE SOBRE ÁGUAS TURVAS
POSSESSÃO INSANA
CONVITE
AH, ESSE OLHAR
QUANDO O AMOR É AZUL

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

sexta-feira, novembro 30, 2007



Imagem: Nuda Veritas, 1899 [Oil on canvas] (Austrian National Library, Vienna), do pintor simbolista/Art Nouveau austríaco Gustav Klimt (1862-1918).

ALCOVA

I

ABECEDÁRIO PASSIONAL ERÓTICO

Luiz Alberto Machado

Aceno da anfitriã nua.
A partir de agora eu quero amar a sua presença que irrompe no adro da paixão, acessando o trono de sua realeza para viver à larga desse encontro que encanta desde longe como um fogo cruzado entre Romeu e Julieta em vias de fato, quebrando protocolo para que eu saiba o bê-a-bá do amor, reconhecendo todo terreno ao alcance do seu olhar furtivo na estréia do beijo.

Beijo: é bom demais.
Benfazeja sintonia da boca naufragada nos lábios vulneráveis da mulher amada com o seu sorriso arremessado na posição de ataque alvejando a noite e pretejando o dia com toda elegância feminina de beldade egípcia onde a carne da fábula na ponta da língua desliza o cais que quero aportar com o mais profundo teor da carícia.

Carícia na pele acetinada.
Cada qual cuide de nós enquanto eu pelejando toda opulência benfazeja e embalado erradio no encalço dos seus encantos e na perseguição gostosa de sua maciez salva-vida no desfile com cento e tantas variações de sedução na lingerie de toda graça hipnótica na mira lasciva do meu olho, quando ouso tocá-la com um cheiro alisando seu pescoço e abraço e aperto tudo que for do seu desejo.

Desejo no degrau da tentação.
Deu-se presente capaz da surpresa partilhando o toque, o arrepio, o contato, dois enamorados encenando suas danças e decolamos pelando de quente na ponta dos pés caixinha de música dionisíaca de saliva e gozo abundantes, até madrugar no corpo da gente e o dia faça coroar o encontro.

Encontro: carne na carne.
Ergue radiante com o prazer em chamas e estarei atento, comandando o fôlego e o fio da meada, afinal de contas parece que veio por encomenda, feito carne da minha carne, bailando ao som de Gismonti devolvendo-me o mundo com vertigem e furor.

Furor na revanche do nosso inferno delicioso.
Fisgo e sei que na verdade sou fisgado e fecundo travesso na terra fogosa primordial, sem cuidados, forno alto mexendo sempre a ondulação dos quadris para que eu possa fincar pé na entrada com o beijo de todas as peripécias dos amantes inundando tudo, alagados pelo doce afogar-se e eu me debatendo com suas garras.

Gozo: a véspera da eternidade.
Garras que divertem a sanha e engana galope e fica provado porque sabe onde têm as ventas, contorcionista com saltos mortais sobre meu ventre no fulgor da oferenda, a trepada e a proa declamada onde todas as frestas e reentrâncias me chamam em rosa para que eu seja sempre seu mais ardoroso hóspede.

Hóspede da delícia.
Hoje eu quero ser maior que o meu próprio desejo para sorrir impiedoso enquanto sobejo um delicioso bocado de comida enfiado em suas pernas no topo das paradas para ser ocupante autônomo pelo laço de sua sedução que me agasalha na enorme profundidade do seu íntimo.

Interior da catarse.
Íntimo que me faz familiar com o sândalo envolvente de sua carne com toda a intensidade de magia, toda imponência aconchegante da pele translúcida sedutoramente esguia na pose sonâmbula esfregando minha pele entre os dedos na supremacia das paixões juradas.

Jazo no delírio do mergulho.
Já me vejo indomável ambulante abusando dos limites de sua integridade, com toda gulodice dos deserdados, todo fôlego dos nômades, toda euforia dos aguerridos pronto para confundir noitedia de nosso rebuliço de luz.

Louca itinerância do prazer.
Luzidia emoção surpreendente e eu regando seu monte de vênus na matriz do querer, onde toda instância procede do amor fecundo rente a todas as brechas para travessuras, acessível para todas as traquinices impetuosas no seu saracoteio e que o resultado seja o espraiar da maravilha.

Mata desvirginada: botijas à flor da terra.
Maravilhado com o cheiro de buquê de rosas do seu ventre e batendo a macega púbica, a sua mata atlântica devastada e eu sorvendo os seus lençóis freáticos, revirando tudo, sangue fervendo na veia e acedendo a labareda da loucura que esborra estrepitosa para o meu lauto repasto que se agonia de vê-la se rendendo ao nirvana.

Nas nuvens etéreas da orgia.
Nunca mais um nome, nunca mais qualquer lei, só a entrega transgressora que se faz quentura no acasalamento viciado de amor e somos medonhos gemidos no nosso prazer onírico.

Onirismos das veias pulsantes.
Onde oscila os ventos de nossa obscenidade e vou na ventania do desejo língua de fora rangendo os dentes arrebentando com tudo para que me sirva integral mesa posta servida para alcançar a garupa da potranca.

Pódice: o alvo.
Possibilidade mágica com que eu chego rugindo qual leão com uma carícia na garupa gostosa alternando ritmos frenéticos, onde o meu lança-chamas com tamanha intensidade revida a nababesca magnitude carnuda da parelha que me completa com o seu punhado de doação, empinando a bunda para que eu libertino total possa repartir do poder aquinhoado de sua graciosidade e a se crer no que ela faz de mim com luxúria e paixão por seu atrevido torso pro meu quadrívio.

Quando tudo vai além da entrega.
Quando tudo é de seu céu e inferno na delícia de ser e não-ser por qualquer primazia que prevaleça quando tudo é nada e noite é dia e eu sou britadeira que implode suas estruturas e nos resta renascer.

Rastejando no assoalho nu.
Renascer de tudo no meio das rajadas medonhas a deparar um ao outro a refeição sanguinária de toda carnificina com toda ferocidade a estender um ao outro no tapete, quando rasteja ofegante para me render na surpresa da servidão.

Seminem in ore.
Servidão da boca com gosto de prazer, servindo-se com os refletores do seu sorriso quente no impulso de abrir fogo palpitante, afável e acolhedora na insaciável felação, felatriz total.

Transcendência antropofágica.
Totalmente entregues embaixo de nossa árvore, tal Melancia e Coco Mole e eu tomando de assalto, perfeita camaleônica mimética com toda graça dos mamilos rosados de Luciana Ávila no noticiário se desnudando a exalar das pernas flexíveis o perfume impregnado de sexo quando os braços pendem, relaxa as pernas num orgasmo duplo e somos toda a nossa unicidade.

Untando o desejo visceral.
Única e altaneira perfeição com o brilho de todos os diamantes no olhar e um sorriso em minhas mãos e seus seios ao carinho do meu afago e me chupa o dedo ereto a me conter por dentro dos braços, nossas luzes acesas e toda oportunidade vida.

Vicejando além dos limites.
Vida que vou circundando sua resistência na voz quente que sussurra abstrata na brisa, gritando meu nome, sonhos, poderes e tesão, esfregando minha ereção e seus dedos escapam pelas bordas do meu sexo em chamas sob risadas indecentes que se mexem pro meu xodó.

Ximão fisgado no jeito dela.
Xodó que me deixa a boca ofegante de náufrago esguichando o gêiser da minha agonia, que me faz enveredar na sua gruta com meus dentes a buscar sua herança secreta que mal dobra a esquina e que amanhece e é bom demais possuí-la, anfitriã gentil do zênite.

Zênite: graças à vida, o amor.
Zelozo vou febril cultivador zanzando suas entranhas, suplantando suas ofertas, transcendendo a barreira do auge na apoteose de todo ocaso até zurzir onde houver paradeiro para o nosso amor. E a cortina desce na alcova, tudo recomeça já e sempre. U-lá-lá! U-hu!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

Veja mais Crônica de amor por ela. E se divirta com as previsões do Doro para 2008 de todos os signos.

quarta-feira, novembro 28, 2007



Gentamiga,
Hoje é dia de festa!
Hoje é o aniversário da Derinha Rocha, essa menina encantadora, pessoa muito gente, muito especial.
Por isso, nada mais justo que aqui eu faça uma saudação. Uma homenagem de gratidão: Feliz aniversário, Derinha, obrigado por tudo! Eis um poeminha:

ESSA MENINA

Luiz Alberto Machado

Essa menina é feita de lua. Ela voa na rua prontinha querubin. E me apronta tlin tlin no alto da campina onde tudo é cantina feita só de si.

Ah, essa menina que dança com jeito, somente a gingar. Qual estrela lá mansa na unha matutina, desde sonsa ilumina onde antes supunha nunca existir. Ela está sempre aqui como chama na retina, como a grama que mina todo o quintal. E se faz de vestal de todos os presságios. Ela alucina ao contágio. E ela só vale ágio na sina do apelo a brilhar nos cabelos toda magia. O que eu mais queria: roubar o seu cheiro, seu secreto terreiro de tangerina. Ah, fulmina iminente – ela não é gente – é deusa a mendigar.

Essa menina é feita de mar, intensa, quiçá, real mais divina. Quando vem cabotina só me desmantela. Ela vira a janela pronta pr´eu abrir.

Essa menina chega com o olhar ardendo de vida. Quase desvalida com a boca nas asas que vaza e é guia perdidas esquinas, toda emoção repentina com o sopro de aguerrida na pele. O paladar que repele na maior febre, que tudo se quebre ao sol posto - a saliva com gosto de boa cajuína. Ela é tão traquina: o seio da boca sedenta. E venta maior ventania. E, todavia, se põe a chover: o corpo queimando o prazer.

Essa menina é feita do rio que escorre ao quadril pra me afogar. Patati, patatá, é ela que me abriga como se eu fosse a viga que ela quer sustentar.

Essa menina, bailarina da noite, em carne viva, vitalina, essa flor menina a me servir sucessivas entregas, peças que prega nos meus cinco sentidos.

Essa menina é feita de peso: a coxa tatua o desejo que as pernas eqüinas rolam sobejo do sexo azul. Eu todo taful com seus pés nos meus braços que o abraço fulmina e lateja, água que poreja tão pequenina e vira ribeirão na luz feminina. Vingo-lhe a nuca que me ilumina e ela me sorri encantada, franzina com a gula que vai da glória à ruína.

Essa menina e a mão culpada de amor. Ela brota, ereta, me socorre, me empesta. Salta da grota, na greta, virada na breca, capeta, na alvura exalta, cristalina. E tudo se arrasta, arrebata, contamina. E me larga no sopro. Meu corpo oficina. Maior serpentina de carnaval. E me faz imortal. Vem e ilumina a vida toda esquecida no meio da paixão. É quando, então, ela cisma do mundo e reduz quase tudo na palma da mão onde ela mais que altaneira me deita na esteira e me nina um milênio de paixão.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

terça-feira, novembro 27, 2007



Imagem: Cupid and Psyche, detail, 1786-93 (Musée du Louvre, Paris, France), do escultor neoclássico italiano Antonio Canova (1757-1822).

QUANDO QUEM MANDA É O AMOR

Luiz Alberto Machado

Vai a vida e nem aí. Tudo vai meio insosso, meia boca, tudo bem. Tudo sem sobressaltos, sem atropelos, até à toa e nos conformes, escorrendo na calha do racional, nem insinuando qualquer saída dos trilhos das metas ao alvo determinado. E é nessa hora que a gente se acha seguro, na certeza de que nunca mais definhará ou se submeterá ao estrupício de qualquer paixão. Ledo engano. Nada como uma noite entre um dia e outro para provar que, do inopinado, tudo se vira de pernas pro ar. Aí, segurar o tranco é que são elas, força redobrada no braço, pulso firme, punho determinado.
De nada adianta quando quem manda é o amor, nada mesmo. Basta rolar um clima que ninguém, mas ninguém mesmo, sabe de onde vem, onde se escondia ou de que raio de lugar chega a eclodir. E rola mesmo assim, do nada. Só se sente o flagra quando toca uma daquelas canções na pele da alma, como a do João Bosco, que diz "(...) o amor quando acontece a gente logo esquece que sofreu um dia...". Isso apenas só um olhar nada pretensioso que cruza sorrateiro na exaltação do flerte e traz o arrepio no corpo atravessando toda espinha dorsal. Chega com um frio no plexo solar minando o coração e acedendo a libido. Nessa hora as idéias dão um nó e seja lá o que deus quiser.
Mesmo assim, tudo é percebido como nada demais, levando a crer que vai se sair ileso: é só para ficar, mais nada. Nada o quê? Compelido pela imantação dos seres, vem surgindo devagar àquela revolução no peito que de tão estrondosa não se sabe bem o que é, mas que desarruma tudo a ponto de se desejar ardentemente estar ao lado daquela pessoa que vira tudo dos pés à cabeça.
Na maior desorganização o desgoverno reina na convergência dos olhares, na timidez insinuada, no encontro agradável aonde cada um vai se surpreendendo mais com o outro, uma gentileza infinita, uma identificação exaltada. E quando dar fé, nossa, um talqualzinho o outro, quanta coincidência, hem?
Pois é, mesmo nem sendo tão parecidos assim, tudo se inclina pro estreitamento no conluio dos afetos. É que no terreno do amor um passa a ser o outro e vice-e-versa, a viver pelo outro, a fazer tudo pelo outro, desmedidamente. Os dois passam a ser um: a unidade dos sentimentos. Isso sem contar com o febril perfume que vai incentivando aquele desejo desenfreado no mel da paixão avassaladora, acendendo a volúpia possante que desemboca num sim pro namoro das almas desgarradas. É aí que se perde a noção de si em mil ternuras que explodem demonstradas, milhões de carinhos dedicados, zis encantações afloradas, tudo em nome da entrega absoluta dos quereres mais arraigados. É o amor e quando ele reina não há espaço para mais nada. Ah é o amor na vez do seu domínio e com ele vem a febre do desejo ardendo, o fogo da paixão atiçando, os corpos pelando na combustão amorosa, tudo levando a saciar carências sedentas para satisfação do prazer de todas alucinações. Por causa dele, o sol brilha mais veemente, a vida é mais espetacular, o mundo passa a merecer a razão de se estar vivo, o universo é uma mera distância que exalta a infinitude do idílio, a natureza é o palco para a real felicidade.
Amar, por isso, é o sentimento mais sublime de comunhão humana. É nele que tudo é vivo, tudo é verdadeiro, tudo é a mais real manifestação verdadeira de vida.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

Veja mais Crônica de amor por ela. E também Rol da Paixão.

segunda-feira, novembro 26, 2007



Imagem: Heart of Snow, do pintor ingles pré-rafaelista Edward Robert Hughes (1851-1914).

UM POEMA DE CHARLES BAUDELAIRE
“(...) Esta mulher, que é um bloco tão miraculoso, divinamente forte e alvamente delgado, é feita para a pompa de um leito suntuoso e o sonho e o lazer de um príncipe ou de um prelado. (...) A volúpia me chama e a paixão me cora. A este ser que é dotado de tanta realeza, vê que encanto excitante a gentileza doa!” (Charles Baudelaire (1821-1867), A máscara).

Veja mais poemas & canções de amor por ela. E no Tataritaritatá!

sexta-feira, novembro 23, 2007



Imagem: Adam and Eve (unfinished), 1917-18, do pintor simbolista e da Art Nouveau austríaca Gustav Klimt (1862-1918) - (Österreichische Galerie, Vienna)

ENVOLTO

Luiz Alberto Machado

Minhas mãos: o calor de sua carne meândrica
Preciso sabor da aragem para minha paz
Lenha para as chamas do meu fogo

Seus beijos são magia ardente
que acende a delícia do meu prazer

Meu desejo: a alma candente desnudada
- coisas da terra, mar, sofreguidão ubíqua

Nossos quereres: atração tremulenta
pele na pele
olhar no olhar
imã no sexo rigente

Eis o pavio passional: amor


© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

Veja mais Crônica de amor por ela. E mais: a Confraternização Tataritaritatá e os clipes na Agenda.

quinta-feira, novembro 22, 2007



Imagem: Andrômeda, 1929, da pintora polonesa/americana de Art Déco, Tamara de Lempicka (1898-1980).

UM POEMA DE HILDA HILST
Antes que o mundo acabe, Túlio, deita-te e prova esse milagre do gosto que se fez na minha boca. Enquanto o mundo grita belicoso. E ao meu lado te fazes árabe, me faço israelita e nos cobrimos de beijos e de flores. Antes que o mundo se acabe, antes que acabe em nós nosso desejo. (HILDA HILST, Árias Pequenas. Para Bandolim).

CILADA

Música de Mazinho & letra de Luiz Alberto Machado

Você sequer fitou meus olhos
Pra saber da cilada que o amor pregou em mim
Desatinou
Nem reparou o dano
E o meu coração profano
Duvidou do que era sim
Enfim à mercê dos seus açoites
Pelas emoções da noite
Na batalha de se amar
No ter de sua façanha
Abissal paixão tamanha
Fez o fogo me queimar
E as garras hábeis de tocaia
Fez de mim sua cobaia
No contágio do calor
Era luz da maravilha
E sob os trilhos da armadilha
A partilhar do seu amor
Amor de fera mansa
No bailado dessa dança
Fez a guerra e o desertor
Sequer o meu olhar fitou
Não sabia da cilada
Qual picada envenenou
Mesmo fera indulgente
Seus desejos diligentes
Fez do canto o seu cantor
Rosnou no ar felicidade
Fez soar cumplicidade
No afã do caçador
E as garras hábeis de tocaia
Fez de mim sua cobaia
No contágio do calor
Era a luz da maravilha
E sob os trilhos da armadilha
A partilhar do seu amor.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Primeira Reunião. Recife. Bagaço, 1992.

Veja mais Cações de amor por ela. E vem aí o REVEILLON TATARITARITATÁ!!!

quarta-feira, novembro 21, 2007



Ginofagia (Poemiudinhos). In: Crônica de amor por ela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Arte: Derinha Rocha.

DOIS HAIKAIS DE LENA JESUS PONTE
Entregue à alegria, eu beijo a boca do dia. A alma está no cio”.

Entregam-se ao sol as marias-sem-vergonha sem medo de escândalo”.

Veja mais Ginofagia. E vem aí o Reveillon Tataritaritatá!!!

terça-feira, novembro 20, 2007



Imagem: Jean Shrimpton, 1972, do fotógrafo inglês David Bailey.

A MAGIA DO OLHAR DE QUEM CHEGA

"Há no seu olhar algo surpreendente como o viajar da estrela cadente eu quisera ter tantos anos-luz quantos fossem precisar pra cruzar o túnel do tempo do seu olhar...“ (Gilberto Gil)

Luiz Alberto Machado

Quando o nome que não se pode dizer tocava - dlin! dlon! -, a campanhia estridulava e trazia o seu olhar - que olhos pidões, meu deus! - indigente de quem se encontra na carência de encontrar o meu; eu me dizia Romeu "é minha dama! Oh! ela é o meu amor! Oh! se ela soubera! Fala, entretanto, nada diz; mas que importa, falam seus olhos".... era um trasgo adusto e a minha lucidez se evaporava, e absorto me deixava ululante a ponto de encher com azáfama meus nervos e à cambalhotas o meu coração desencontrado. Era, com certeza, uma teopsia, onde Perséfone se transmudava em zis personagens para protagonizarem minha loucura. Eu sabia e me embevecia, me entregava ao seu enleio como quem se entrega à própria sorte.

...de quem vai se entregar
Seja em qualquer lugar
Onde a sorte vier...


O seu olhar se mostrava carregado de ternura e cobiça invadindo todas as minhas entranhas e todas as dependências do meu apartamento, removendo taciturnidades, solidões, monocórdios, varrendo a mesmice, a pasmaceira e a misantropia impregnadas no meu ser e no ar de todo ambiente, trazendo um clima festivo de luzes acesas e alvoroços siderais para a minha acomodação. Seu olhar me dizia Julieta "jura-me somente que me amas... toma-me toda inteira!"... era um rebuliço faceiro que sua figura altaneira causava no acorçôo de minha alma, do sol brilhar-lhe valorizando sua presença. E eu enamorado recitava com as forças do meu coração "com as leves asas do amor transpus estes muros, porque os limites de pedra não servem de empecilho para o amor. E o que o amor pode fazer, o amor ousa tentar... ai! Mais perigos há em teus olhos do que em vinte de suas espadas... amor, que foi o primeiro que me incitou a indagar; ele me deu conselho e eu lhe dei meus olhos"... Era a trapaça de ver-me rendido no lance, tantalizado com a sua chegada inopinada, acabrunhado com o seu jeito e com o leve toque descompromissado do seu olhar em minha direção a cobrar-me "jura pela tua graciosa pessoa que é o deus de minha idolatria... quanto mais te dou, mais tenho", rompendo a encruzilhada do prazer, exorcizando meus demônios com seus lábios - aquela boca linda de Liv Tyler, fissurando-me com seus lábios bom de morder, salientes e capaz de seu diâmetro escancarado abarcar meus segredos excitados, aliás, diga-se de passagem, a sua boca era uma entre tantas outras seduções capazes de me endoidecer, de sonhar com meu sexo duro, túmido, dentro, todinho, engulido por seu paladar - e seus seios de Mathilda May rodopiando na minha saliva, sua pele sedosa eriçada, seu corpo esgalgo, a sua carne de polpa saborosa, seu ventre humoso - aquele ventre estival e sápido -, a taça do seu veneno para beber ensandecido na doação de seu corpo maternal... "o amor corre para o amor"... entoei...

Quero que você me venha de manhã
Plantar a luz do sol
Com sua fonte a minar
E em mim se escorrer...


E me contornava inóspita, toda exata com sua blusinha de alça, deixando prevalecer todos os seus atributos, a proeminência dos seios latentes, as vestes coladas no corpo realçando a sua vitalidade e seus dotes corpóreos aliciando a fogueira ardente do meu corpo sedento por tostar-lhe a alma agradável sussurrando em sonho ao meu ouvido... "e como o amor é cego, combina melhor com a noite!... vem, tu, dia da noite, pois sobre as asas da noite parecerás mais branco do que a neve recém-pousada sobre um corvo!... vem, noite gentil!... vem, amorosa noite morena... Dá-me meu Romeu!...."

...e aguando esta ternura
A gente dê vontade de nascer
Beijar-lhe o ventre
E ver a vida a rolar... vai ser demais!


E ela caminhava citígrada na noite da minha solidão, pesunhando minha alma e eu seguindo seus passos insones, ah! pequena aljôfar de olhos súplices fitando-me compenetrada enquanto chupava sorvete só para me provocar; deixando-me antever a textura de sua língua exuberante e aveludada naquele rostinho lindo, semi-angelical, de uma beleza ostensiva tripudiando meus quereres decíduos e arruinados pela sua supremacia toda acanhada, silente, sonsa, excitante, solaçosa, enxuta, fermentosa, édule, usurpando minha quietude com a sua blusa a mostrar-me o rego dos seios generosos, onde eu já via na minha ilusão instantânea a sua manifestação de naja com seu capuz estufado para me devorar e premida pela sua necessidade, a suavidade de suas curvas desafiando minha perícia para um test drive por seus traços angulosos, suas formas assombrosamente sedutoras. - parece que se vestia assim para mim, na provocação vindicativa do seu olhar imantando o meu gândulo, não se desgrudando imbrífera dos meus segredos mais remotos.

O tempo vai ruir prá nós
Desexistir
Incendiar o corpo, a voz
A sede saciar na foz
Assim, sedento
A diluir-se em flor pelos confins...


Não havia jeito de me desvencilhar de sua imagem onímoda e deslumbrante, provocando um redemoinho em todas as minhas certezas defenestradas dali, deixando-me débil com seu ar brizomante, parece que adivinhando os meus sonhos de vê-la estirada na minha bandeja, nua esurina, trincadeira.

Onde está o que sou eu?
Será renúncia de querer você?
Amor, que vai ser de mim
Se um dia esta vontade de viver
Perder o amor de vista e esquecer
Angústia de não ter raiz
E o ar desvencilhar-se do nariz...
Será de mim?
O que será do meu coração?


A sua voz arrastada, manhosa, mais parecia Nelli Sampaio sussurando versos luxuriosos na minha alucinação, sotaque que mais acrescentava a minha filoginia e nos dava a urgência de nos estreitar mais convergindo ao centro da minha paixão desnudada.
Não forcei a barra, fui manso, deixei a coisa rolar. Eu estava a fim, ela, ao que parece, idem, mas afastada. Ela dava bandeira, mas se resguardava quando eu me insinuava, podando-me a iniciativa. Ela bateu forte, fundo, aguçando a minha imaginação para peripécias zis. Eu sabia que dali sairia um bom caldo. Saquei seu timing, o seu jeito guerreira, altiva e cosmopolita, um tanto animalesca, dando-lhe um trato terno na geografia curvilínea, não poupando um centímetro de sua graça corporal que evocava sabores, brincando com o meu apetite. Eu a desejava da ponta dos pés ao último fio de cabelo e quando exaltava na minha cobiça, seus olhos pareciam mais um pelotão de fuzilamento. Eu recuava, cedia, certo de que haveria ocasião melhor para a minha investida amorançada.
Para puxar assunto inquirí sua data de nascimento, ao que me respondeu caí logo numa sessão horoscopeta, puxando-lhe pela intimidade, descobrindo-lhe que "da mesma forma que damos e fazemos pelos outros, dessa mesma forma receberemos e teremos sucesso na vida", revelando o sentido da troca do amor, da permuta do querer e que, por sua natureza bondosa e muitas vezes desprendida, carecia de se soltar, cobrando-lhe uma reciprocidade clara aos meus intentos. Nenhuma atitude esboçara, impassível. Por ser uma pessoa liberal, franca, honesta, desprezando o enganoso e o ilícito, fixei minha retórica valorizando lugares como a Babilônia, a Pérsia, o Egito, a Palestina e as veredas estranhas do Oriente, onde sabia que se desmanchava por curiosidade, estendendo-se por países como o Egito, China e Japão. Ela estava hipnotizada com minha falácia e eu sabia disso, aguçando ainda mais seu êxtase pelo que eu discorria. Parece que eu adivinhava e ela se desnudava por inteiro perante minhas considerações. Ela me fitava a ponto de engolir-me inteiro. Estava receptiva, ao que acertei em cheio os seus mistérios. Repentinamente, escapulira pela porta à fora, deixando-me a falar sozinho. Com isso perdi a noção de ser feliz. Fiquei por horas e dias a esperar-lhe a presença à minha porta, tocando a campaínha para realizar-me os desejos desenfreados que me afligiam. Sumira. A campanhia calara. A minha desolação ficava cada vez mais aguda ao som do Concierto de Aranjuez. Eu me entregava ao abandono, mastigando meu platonismo.
Não fora esta a única em que me sentira jogado ao abandono. Não, tantas e muitas tantas outras vezes a paixão se platonizara, jogando ao sacrificio da existência. Desde meninote embalado pelos seios da professora do primário, Ilmena, peituda, reboculosa, linda de morrer que me enveredara pelos caminhos do amor impossível. De outra, mais taludo já, bigodinho ralo, uma professora de Ciências, Linalda, ah! esta arrebatara todas as minhas atenções a deixar-me morrer onanista. E Chumbinho, uma coleguinha miudinha, mas troncuda, do ginasial, me extasiara na adolescência. Livânia, uma varapau maravilhosa, quase duas de mim na altura, que ao encontrar-me absorto apaixonado, virava o rosto para o céu como a pedir clemência.
Entre escanteios e desencontros musas mil se enviesaram em meus caminhos, parece até que por vingança de Perséfone. Eu me afligia no centro da repulsa e mais construía meus castelos de invenções: era Malésia que me falava com seu jeito Leila Diniz: "sou uma mulher meiga, adoro amar. Quero mesmo é fazer amor sem parar". E cantarolava: "...brigam Espanha e Holanda, pelos direitos do mar... porque não sabem que o mar é de quem o sabe amar..."
Assim fora, sem Pomona, sem Maristela que vivia de peitica com a minha timidez a mostrar-me seu derrière, atrepando-se a qualquer saliência a me provocar como naquela cena antológica de Sonia Braga no telhado quando Gabriela; sem o riso ao vivo de Marina Lima, que teimava em se manter colorindo meu cérebro; sem a altiva presença de Luciana Ávila ou Mônica Waldvogel atualizando-me com o noticiário nacional, enquanto eu morria de paixonite aguda; sem a Leila sacando no volei ou Isabel paramentada com a mais estonteante torcida pelo Flamengo; sem a Débora Rodrigues, aquela sem-terra sedutora que arrepiava numa direção da Fórmula Truck; sem a nudez de Carolina Ferraz no Pantanal; sem a meiguice de Fátima Guedes, cantando as coisas mais mansas de sua feminilidade; sem a altaneira figura de Vera Fischer, o vinho mais nobre da minha cobiça; sem a viúva Thereza, a residente mais contumaz do imaginário masculino; sem a pele trigueira de Suzy Rego, sedutora feiticeira; sem a magnífica expressão de Kátia Maranhão; sem o impacto do jeito manso de Adriana Calcanhoto, sem o lindo enleio de Leila Pinheiro, sem...
Perséfone aprontara comigo, mais uma vez. Eu ruminava minhas paixões alucinadas e desmedia de mim, do meu próprio tamanho, crescendo, dilatando com meu sofrimento, mergulhando no vórtice da solidão.
Não conseguia me desvencilhar de Pomona, presente em todos os meus projetos de vida, meus sonhos e meus desejos. Eu sentia a sua falta, mas nada podia fazer. Estava distante e eu mesmo me recusara reencontrar-lhe, recusara tudo, até de mim mesmo. E com isso sofria, derramava meus lamentos em tons e páginas, sem a menor piedade. Tinha que sofrer e dessa loucura sair emancipado, adulto, refeito. O que pode o coração? E aguando esta ternura a gente dê vontade de nascer, de renascer, de ser feliz. Que será do meu coração? Eu ouvia Clarice Lispector no centro da maior das minhas contradições. Eu que me desencontrava à toa. E era a minha catarse. Soubera de nada.

© Luiz Alberto Machado. Direitos Reservados.

Veja mais Rol da Paixão. E vem aí o Reveillon Tataritaritatá!!!